O fascismo da língua

Antonio GuerreiroA reflexão sobre a emergência de tropismos da vida política e social dos nossos dias a que podemos chamar fascismo surgiu há pouco tempo em França e em Itália (a revista italiana de filosofia aut aut contribuiu com o seu último número para o debate), o país de Pasolini – e de Berlusconi -, um autor de uma enorme actualidade, relativamente a esta questão. A legitimidade de usar hoje o termo “fascismo” encontra uma oposição firme por parte de quem entende que a palavra não pode ter uma definição correcta se deixar de se referir aos fascismos históricos e, desde logo, se prescindir do Führerprinzip, da supremacia de um líder, e de um sentido forte, isto é, metafísico.

Poderíamos pensar que uma das manifestações desse fascismo é a prática que consiste em governar acima e à margem das regras e das leis (até da Constituição), actualizando assim o estado de excepção total e permanente que foram os fascismos históricos. Mas, como verificamos em Portugal, este tipo de racionalidade governamental não quer, nem lhe seria útil, recuperar qualquer resíduo da ideologia fascista. O pragmatismo, a arte meramente gestionária do governo, é o que justifica passar por cima dos princípios e das leis da democracia liberal. Na hipótese mais plausível, isto não vai além de uma versão “reformada” do fascismo histórico. Esta versão reformada permitiu a um filósofo francês encontrar no sarkozismo um “fascismo democrático”, em que o mais importante é o adjectivo “democrático” e não o substantivo “fascismo”, o que leva à seguinte conclusão: “Pouco importa que seja fascista, o importante é que seja democrático”.

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